O Namoro hoje e sua Evolução
Dia 12 de junho é o dia dos namorados. Mais que uma data comercial, ela busca trazer um dos maiores sentimentos históricos da humanidade – o Amor, que também é carregado de diversos significados, conforme a cultura. Assim, no Brasil, o dia dos namorados é celebrado em 12 de junho, pois é o dia que antecede um dos santos (português) que tem enorme relação com o namoro – Santo Antônio, o Santo casamenteiro. Neste texto vamos fazer uma breve reflexão sobre o namoro e a sua mudança no transcorrer do tempo.
Primeiramente vamos tentar compreender o que é namoro. É uma relação entre duas pessoas pautada por valores, compromissos assumidos, interesse mútuo, desejos e de respeito entre ambos. É um período, também, que muitos dizem estar em um estado de paixão (em sentido de pathos). Paixão é um estado doentio, enamorado e temporário... É um estado inicial do relacionamento que com o tempo vai se transformando de atração e se intensificando até um estado de amor e, por conseguinte, em namoro.
A princípio tudo se volta para o outro, tudo só tem graça com o outro, entretanto, no namoro o que se busca é um relacionamento sadio, onde se faz necessário o cultivo da sinceridade, do diálogo, da compreensão, do entendimento de que ambos têm uma vida própria e que não deve ser anulada; enfim, é o tempo para perceber se no futuro este relacionamento poderá ou não trazer algum problema/prejuízo.
Nos tempos atuais, mesmo considerando que as relações e as pessoas estão mais “abertas/modernas” no quesito relacionamentos, as representações ainda confirmam o sexo feminino como mais emotivo e propensa a relacionamentos, enquanto o masculino como razão e individualismo. Essas ideias e expectativas foram desenvolvidas e compartilhadas ao longo do tempo e muitas dessas perpetuam até hoje, porém com nomenclaturas diferentes, como é o caso do “ficar”. Antigamente as pessoas também “ficavam”, mas esta prática tinha um nome diferente, além de ser menos exposta como atualmente. Vejamos, então, de forma sucinta, como o namoro se desenvolveu ao longo dos últimos 100 anos:
Nos anos de 1900 ainda existiam os casamentos por conveniência (àqueles que os pais escolhiam) e era típico da época as serenatas debaixo da janela das pretendidas. Dez anos mais tarde, em 1910, as pessoas começaram a se conhecer em bailes e em outros locais de encontros, saindo um pouco da obrigatoriedade e imposição com quem deveriam ou não se casar. Em 1920 tem-se a presença das alcoviteiras (que em geral era algum membro da família), ou seja, alguém servia como leva e traz dos recados e convites.
Dez anos mais tarde, em 1930, o namoro só acontecia com o consentimento dos pais da moça. Após o “sim” dos pais eles poderiam namorar. Mas tudo isto era regrado (horas para sair e horas para chegar – até as 21h), mesmo assim, só era permitido com o acompanhamento de um membro da família (hoje, popularmente, chamado de “vela”). Chegamos em 1940 e pouco evoluímos – o namoro não “avançava” além do portão da casa e do beijo na mão da moça. Também não se podia namorar por muito e nem pouco tempo, pois isto demonstrava a intenção do rapaz para com a moça.
Em 1950 é que o namoro “avança para dentro da casa”, mas não se animem, pois foi apenas isto que mudou... A supervisão por um membro da família ainda era necessário. Ouvem-se os primeiros rumores sobre as consequências dos términos dos relacionamentos, o que para as mulheres isto era pior, pois recebiam alguns apelidos, como por exemplo “vassourinha” – por ser “muito rodada”.
A pílula anticoncepcional chega ao Brasil e a década de 1960 é marcada pela suposta liberação do sexo, ou seja, os namorados acreditavam que poderiam manter relações sexuais e não se preocuparem com as consequências. Até então as relações sexuais eram tabus para muitas famílias, e isto perpetuou, tanto que se alguma moça engravidasse, elas eram obrigadas a deixar o lar e a se mudar de cidade, como símbolo de desrespeito aos valores familiares. Em consequência destes tipos de relação, na década de 70 os namoros se tornaram mais superficiais e rápidos; o casamento, visto como concretização de um amor que dura para sempre, acaba perdendo adeptos; o transar torna-se mais comum nos relacionamentos.
Em 1980, com a descoberta do vírus da AIDS, houve uma “freada” nos comportamentos dos jovens e os mesmos refletiam mais, antes de qualquer transa. Isto dá “entrada” para os relacionamentos via internet e que, com o tempo, torna-se o namoro virtual.
É nos anos 90 que ocorre o auge do namoro virtual, com os famosos encontros virtuais. Em paralelo a esse mundo, no mundo real existe a competição entre adolescentes/jovens para ver quem fica com mais meninos(as) em uma só noite. Assim, 1990 foi uma década de relacionamentos abstratos e fugazes.
Com o desenvolvime
nto da tecnologia, nem cartas e cartões eram escritos, e no ano 2000 usavam-se e-mails e mensagens instantâneas como forma de contato. Enfim, há uma reviravolta no que se refere ao tema namoro: se encontra de tudo no mundo virtual, desde uma conversa até o sexo; os pais, que não deixavam passar do portão e mesmo assim, às vistas deles, hoje arrumam a cama para que o/a namorado/a durmam nela.
Diante de tantas mudanças é necessário fazer uma pergunta básica, e que muitos já fizeram: atualmente é melhor ou pior para se namorar? Como já descrito, atualmente é o tempo do “ficar”: tempo da ausência de compromisso, limites e regras. O “tudo é permitido” e aceito por ambos parceiros... não tem mais um tempo determinado para o primeiro beijo e o sexo pode acontecer no primeiro encontro. Isto pode ser analisado como ruim, entretanto, o “ficar” favorece a avaliação do maior número de parceiros antes de um compromisso mais sério - o namoro. Há de se considerar que este “ficar” acaba envolvendo as pessoas em intimidades nunca atingidos em um certo grau de namoro, entretanto, é superficial no que se refere à intimidade emocional. O “ficar” veio para ficar. Ele é o resultado de uma mudança na sociedade que reflete o individualismo e o ser centrado em si mesmo.
Ao percebermos que o namoro sofreu essas transformações e que ele é permeado pela relação de individualidade, logo se tem um contrato entre duas pessoas. Nesta relação, o importante é averiguar os motivos que os mantem unidos, pois muitos, assim permanecem porque há ganhos secundários relacionados à manutenção do compromisso. Não desanimemos, pois outros tipos de relações também existem. São relações que se dá preferência ao “nós” em relação ao “eu”. Nessa, nasce uma relação de interdependência entre o casal criando significados e definindo projetos de construção mútua, pois existe a preocupação “do outro” na relação.
São gerações diferentes, frutos de um contexto diferente. Mesmo diante dessas contradições ao longo do tempo o namoro é um relacionamento que busca o compromisso, a confiança e a intimidade do casal. É o tempo da descoberta... É o tempo de atingir a maturidade... É o tempo de conhecer os limites, as fraquezas e riquezas do outro... É necessário se conhecer e conhecer o outro, tendo a garantia da estabilidade de um relacionamento que seja satisfatório para ambos, dure o tempo que durar.
Assim, uma relação satisfatória pressupõe empenho dos parceiros e resolução dos conflitos e desafios. É fundamental que haja superação no relacionamento para que estejam satisfeitos. Harmonia, diálogo, respeito, carinho, consideração pelo outro, independente do tempo em que falamos de namoro eles estão presentes, mas representados à partir da cultura e dos valores de cada época.
BERTOLDO, Raquel Bohn; BARBARA, Andréa. Representação social do namoro: a intimidade na visão dos jovens. Psico-USF (Impr.), Itatiba , v. 11, n. 2, p. 229-237, dez. 2006 . Disponível em . acessos em 03 jun. 2015. https://dx.doi.org/10.1590/S1413-82712006000200011.
FONSECA, Sofia Raquel Alves; DUARTE, Cidália Maria Neves. Do Namoro ao Casamento: Significados, Expectativas, Conflito e Amor. Psic.: Teor. e Pesq., Brasília , v. 30, n. 2, p. 135-143, jun. 2014 . Disponível em . acessos em 03 jun. 2015. https://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722014000200002.