CARNAVAL... FESTA DA CARNE?
As festas de final de ano nem se acabam e no dia seguinte já se vê as manchetes anunciando o carnaval - festa esperada por muitos, seja para descansar, viajar ou para entrar na folia.
O carnaval possibilita um afastamento do cotidiano, e isto é bom, pois na maior parte do ano estamos correndo atrás de algo. Um cotidiano em que se busca a conciliação da vida profissional com a pessoal, em que há uma constante preocupação em pagar as contas, cuidar dos filhos, manter-se saudável e seguro. Festas, praias, descansos durante o ano? Difícil! Estamos em uma cultura/sociedade regida por regras. Todos os lugares (família, trabalho, faculdade, religião) possuem regras que devem ser seguidas. Além dessas temos as autoregras (“eu não posso”, “eu não quero”, “eu não devo”). Assim, na maior parte do tempo, há uma busca pelos comportamentos socialmente aceitáveis e, muitas vezes, ficamos privados de algo que gostaríamos de fazer, como por exemplo, escolher entre ir à praia ou estudar para a prova.
É assim desde a infância... deixamos aos poucos o mundo da fantasia de lado e passamos, cada vez mais, a assumirmos um mundo em que a manipulação pelo marketing é intensa. Porém, quando crescemos, buscamos um retorno a esta fantasia, ou seja, fugimos da realidade, das regras, mesmo que seja por alguns dias, e é o carnaval que “autoriza” e que dá asas a este comportamento.
Historicamente, não há uma precisão sobre o local e nem o tempo em que o carnaval surgiu, porém uma das possibilidades seria que tudo começou na Grécia, entre os anos 600 e 520 a.C.. O objetivo da festa era agradecer aos deuses a fertilidade do solo e a colheita realizada. Com o passar do tempo os romanos e os gregos passaram a consumir bebidas alcoólicas e a ter relações sexuais durante os dias de festa, o que passou a ser visto como ruim pela Igreja. No ano 590 d.C. a Igreja incluiu o evento em seu calendário com o objetivo de eliminar os “atos impuros” praticados durante o tempo de festa. O termo carnaval tem origem na expressão carne levare, que significa “afastar a carne”, seria um último momento de alegria e festejo antes do triste período de jejum, abstinência e reflexão proposto pela Igreja, denominada de quaresma. A festa da fantasia chegou ao Brasil em 1723 e com o tempo foi se transformando na maior festa do país. A mistura de costumes e de tradições fez do carnaval brasileiro o mais famoso do mundo.
Para o sociólogo Émile Durkheim os rituais do carnaval são formas encontradas pela sociedade moderna de esquecer o mundo real e viajar para outro onde quem manda é a imaginação. Assim, a necessidade humana se liberta dos padrões do cotidiano e mergulha em um mundo de fantasias e de prazer, em que as brincadeiras, o imaginário, a sensualidade e a alegria tomam conta.
Não há represálias! Pessoas libertam suas fantasias com as máscaras, sem terem que sofrer com a censura oficial, moral, social e religiosa. O carnaval desvela no palco da vida, as fantasias desde as mais íntimas às mais saudáveis e criativas. As máscaras, como as fantasias, cumprem a função de trazer á tona os comportamentos privados da pessoa, ou seja, comportamentos que foram anulados - por medo, por vergonha ou por qualquer situação aversiva no passado. É o momento ideal para o indivíduo extravasar e ser diferente do que é nos outros dias do ano.
Como mencionado, o carnaval tem uma função positiva e nos ajuda a vivenciar outros aspectos psicológicos, além de ser uma válvula de escape importante. Ele pode ser muito proveitoso... É o momento de relaxar e vivenciar um lado que não permitimos na maior parte do ano, de se divertir com o inadequado, extravasar a alegria e retornar mais leves para a realidade.

É interessante também não perder o autocontrole para que, no calor da folia, não faça algo que possa arrepender-se ou até mesmo deixar com sentimento de culpa no futuro. O bom seria ficar sob controle das consequências dos comportamentos. Ao analisar o comportamento e chegar à conclusão que “vale a pena” fazê-lo, siga em frente e aproveite o momento, mas assuma as consequências que provavelmente virão.
O reconhecimento do que é bom e do que é mau e não adequado favorece uma integração saudável, beneficiando o bem estar da pessoa envolvida e garantindo a manutenção em comportamentos selecionados por ela.
Referências:
Revista Psiquê. O carnaval e a importância dos ritos.