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O Ser Criança

03/11/2015 08:50

O Ser Criança

Dia 12 de outubro é comemorado o dia das crianças... E porque não escrever um texto sobre elas... Ser criança é uma época que todos os adultos passaram, e que, em sua grande maioria, sentem saudades... Será que as crianças do início do século XIX tiveram a mesma infância das crianças de hoje? Qual infância é melhor: a de nossos avós ou as das crianças de 2015? Vamos esclarecendo essas perguntas no transcorrer do texto.

Criança, por definição, também conhecido como infante, é àquele que não fala, que não tem espaço entre as pessoas, enfim, aquele que não tem vez entre os demais. Historicamente, assim se concebia a criança na modernidade (cabe ressaltar que criança é um termo da modernidade, embora a concepção de criança sempre existiu), porém, em sociedades medievais a infância não existia, ela era parte do ambiente, do mundo adulto, tudo a criança fazia parte, inclusive de conversas “de adulto”. Porém, com o advento da modernidade e da industrialização surge a concepção de criança como sinônimo de inocência, onde se tornou necessário o cuidado e a atenção por um terceiro. Quando era possível a mãe estar por perto, ótimo, mas nem sempre isto acontecia, então, surgiu a figura da escola e do jardim da infância.

Desta forma, a concepção de criança é uma construção cultural, social e histórica. Vygotsky diz que as crianças não são só transformadas pelas relações em que estão presentes, mas ao interagir com este ambiente ela, também, promove mudanças. Portanto, estamos falando da criança como um sujeito social... Um ser que está crescendo e ao mesmo tempo interagindo, descobrindo e transformando o ambiente.

A constituição do sujeito, no caso da criança, passa pelo significado que o outro dá às ações que este sujeito praticou, lembrando que a significação do outro também é permeado por um processo histórico e cultural. Logo, a criança vai se transformando de um ser biológico em ser cultural. É desta forma que precisamos conceber as crianças... Como possuidoras de um histórico de vida, de valores, de sentimentos, e não enxerga-la como uma tábula rasa sem nenhuma interação, como um ser estritamente biológico e “morto”.

A percepção que temos da criança e a forma como interagimos com ela é que fará toda a diferença em seu desenvolvimento. Ela precisa ser ouvida, ser respeitada, participar cada vez mais das decisões que lhe dizem respeito e que interferirá sua vida.

Você perguntou para o seu filho, sua filha, o que ele quer fazer hoje? Ou você já programou toda a semana dele, partindo da vontade e do interesse seu e não do dela? Rousseau (1981, p. 75) já dizia que “a natureza quer que as crianças sejam crianças antes de ser homens. Se quisermos perturbar essas ordem, produziremos frutos precoces, que não terão maturação nem sabor e não tardarão em corromper-se; teremos jovens doutores e crianças velhas. A infância tem maneiras de ver, de pensar, de sentir que lhes são próprias, nada menos sensato de querer substituí-las pelas nossas [...]”. A infância é de quem? Por que anulá-la?

A criança se desenvolve pelas experiências vivenciadas, pela interação que ocorre com outras crianças, com adultos e com o mundo. Talhá-la é o mesmo que aprisioná-la. Muitas crianças no momento estão abrindo mão de um desenvolvimento, frutos de um modismo e da diversidade de estímulos cada vez mais rápido. A tecnologia faz com que as coisas, e consequentes relações, sejam descartáveis e substituídas facilmente. Não estamos dizendo que a tecnologia é ruim e que devemos regredir no tempo, mas se deve deixar a criança ser criança, brincar, criar, imaginar.

O brincar de boneca significa criar um universo, como: criar uma casa com cadeira da cozinha, fazer um estante com tijolo, usar uma roupa dobrada como cama. O brincar de carrinho era: criar personagens como bombeiros, policiais, construir cidades com caixas de papelão, entre tantas outras que é da fantasia do mundo da criança. A criança era estimulada a criar, a imaginar o mundo, a satisfazer seus desejos impossíveis. Na brincadeira a criança busca agir além do que lhe é permitido, estimulando o processo de desenvolvimento.

Entretanto, quando adquirimos um “brinquedo pronto”, como, por exemplo, a “boneca médica” ela, em si mesma, anula a possibilidade da criança imaginar, diminuindo seu potencial. Neste contexto faz sentido a criança ter várias bonecas, pois logo se enjoa e se quer uma nova (não quero mais a médica, mas a super-herói). Quanto mais atraente o brinquedo é mais ele se distancia da função de brincar; quanto mais próximo do real, mas distante da brincadeira e da imaginação, da capacidade de criar e de fantasiar. É a descaracterização dos brinquedos diminuindo o processo de desenvolvimento da criança.

Cria-se com isso a alienação, pois somente a imagem nos é solicitada, e a razão torna-se desnecessária. É o consumismo, desde a infância, nos levando ao prazer do imediato e dos sentimentos, aprisionando as crianças em um mundo de falsas necessidades e de experiências superficiais que resultarão em baixa resistência às frustrações. 

É difícil, em um contexto capitalista, pensar o lúdico enquanto atividade inerente ao ser humano, e essencialmente na criança. Talvez precisemos dessa mudança e fazer do lúdico uma forma de viver alegre e se desenvolver, pois como disse Almeida (1990) “ninguém é mais livre neste mundo do que aquele que consegue viver a alegria na liberdade, a liberdade na alegria e a alegria no viver” (p.11).

Então... Vai fazer o que hoje?

 

 

Referências:

BRANCHER, V. R. Cultura Infantil: problematizando a ludicidade e o ser criança hoje, 2008.

LUZ, Mônica Abud. Entendendo o que é ser criança. 2010. Disponível em https://www.abpp.com.br/artigos/117.pdf Acesso em 08 Set 2015.

SOUZA, T. O. . Infância e modernidade: o ser criança e o brincar. In: II Simpósio Luso-Brasileiro em Estudos da Criança, 2014, Porto Alegre - RS. II Simpósio Luso-Brasileiro em Estudos da Criança: pesquisas com crianças e desafios éticos e metodológicos. Porto Alegre - RS: UFRGS, 2014.

 

 

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